
A micoterapia não surge num vazio. Surge dentro desta macro-tendência económica e científica.
A medicina veterinária está mais exigente. Mais regulada. Mais orientada por evidência... e ao mesmo tempo, mais aberta a abordagens complementares que acrescentem valor clínico sem comprometer rigor.
Só na Europa, o mercado de cogumelos funcionais ultrapassa os 11 mil milhões de euros em 2024, com projeção de se aproximar dos 27 mil milhões de euros até 2032, a crescer acima de 11% ao ano.
A pergunta não é se está na moda.
A pergunta é: onde faz sentido integrar, com critério clínico?
▶️ O que é micoterapia em contexto veterinário?
Micoterapia refere-se à utilização terapêutica decogumelos medicinais biofermentados, ricos em beta-glucanos, polissacarídeos e triterpenos.
Espécies como Ganoderma lucidum, Coriolus versicolor, Lentinula edodes, Hericium erinaceus ou Cordyceps spp. são das mais utilizadas.
Os mecanismos de ação descritos na literatura incluem:
Modulação imunitária
Atividade anti-inflamatória
Suporte antioxidante
Influência sobre o microbioma
Apoio metabólico
Em produção animal, revisões recentes em avicultura reúnem dezenas de ensaios com diferentes espécies de cogumelos, mostrando de forma consistente melhoria de desempenho, imunidade e saúde intestinal em frangos e poedeiras quando comparados ao controlo.
Em alguns desses estudos, misturas de cogumelos apresentaram resultados de crescimento e conversão alimentar comparáveis a grupos que recebiam antibióticos promotores de crescimento, como virginiamicina a 20 mg/kg.
Mas há um ponto crítico que importa reforçar: não é o nome do cogumelo que determina o valor clínico. É a qualidade do composto biofermentado, a padronização dos compostos ativos e a coerência com o protocolo terapêutico definido pelo médico veterinário.
▶️ Pets: onde pode integrar com sentido clínico?
Na Europa, 85% dos tutores consideram que nutrição e suplementos são tão importantes para os seus animais como para humanos, e o segmento canino já representa mais de 50% do mercado de nutracêuticos, a crescer acima de 8% ao ano.
A micoterapia insere-se neste contexto de procura por soluções complementares estruturadas.
▶️ Oncologia veterinária
É na oncologia que a micoterapia surge com maior consistência como abordagem complementar.
O enquadramento é claro: suporte imunitário, acompanhamento em protocolos exigentes e foco na qualidade de vida.
Não substitui terapêutica convencional. Pode integrar como adjuvante, quando existe racional clínico e acompanhamento adequado.
▶️ Doença crónica e geriatria
Em cadeias veterinárias europeias focadas em prevenção, dados internos apontam para mais de 60% dos cães seniores já a receberem algum tipo de suplemento diário, com crescimentos anuais relevantes em categorias como articulações e longevidade.
A decisão de integrar cogumelos medicinais deve ser individualizada, integrada no plano global do paciente e sustentada por formação da equipa clínica.
▶️ Gastroenterologia e microbiota
A influência sobre o microbioma intestinal é uma das áreas em crescimento. A integração deve ser feita com prudência e coerência terapêutica.
▶️ Dermatologia e alergias
Em contextos inflamatórios cutâneos, pode surgir como complemento. Nunca como solução isolada.
▶️ Produção animal: alternativa estratégica ou complemento tático?
Na produção, o enquadramento é diferente.
Uma revisão recente em frangos e poedeiras mostra que a maioria dos estudos com suplementação de cogumelos melhora a eficiência alimentar, a taxa de crescimento e a qualidade do ovo, em alguns casos com performance estatisticamente indistinguível de dietas com antibióticos promotores de crescimento.
Num ensaio com 240 codornizes, a inclusão de 30 g/kg de subproduto de cogumelo na ração melhorou de forma significativa o ganho de peso, a conversão alimentar e os títulos vacinais, sem aumento de consumo de ração nem mortalidade face ao controlo.
Este tipo de resultado ganha relevância num contexto em que as restrições ao uso de antibióticos na avicultura estão a forçar a procura de alternativas com racional fisiológico sólido.
Em suínos, aves e bovinos, a utilização tem sido explorada como:
Apoio à resposta imunitária
Mitigação de stress
Complemento em estratégias de redução de antibióticos
A decisão, neste contexto, deve ser técnica e económica. Avaliar custo-benefício. Avaliar consistência do fornecedor. Avaliar rastreabilidade.
Porque em produção, a margem de erro é mínima.
O que não pode ser ignorado
A micoterapia levanta desafios que o setor não deve desvalorizar:
Variabilidade entre produtos
Diferenças na concentração real de beta-glucanos
Falta de padronização entre fabricantes
Comunicação comercial excessiva face ao racional clínico
Num mercado europeu onde os cogumelos funcionais já representam quase um terço da quota global e crescem a dois dígitos ao ano, o ruído comercial é inevitável.
Adotar sem critério pode gerar ruído. Integrar com método pode gerar valor.
Tendência estrutural ou moda passageira?
O crescimento dos nutracêuticos naturais acompanha três forças claras:
Humanização dos animais de companhia
Procura por soluções complementares
Pressão regulatória sobre antimicrobianos
Na Europa cresce de forma sustentada, com o segmento canino a registar taxas anuais superiores a 8% até ao final da década, impulsionado por categorias como imunidade, articulações e envelhecimento saudável.
A micoterapia insere-se neste movimento.
Mas o futuro não será de quem adota tudo. Será de quem seleciona bem.
Onde faz sentido integrar?
Faz sentido integrar quando:
Existe racional fisiológico claro
O composto biofermentado é rastreável
A equipa clínica está formada
O posicionamento da clínica é coerente com medicina integrativa responsável
Não faz sentido quando é usado como argumento comercial ou trend.
A pergunta estratégica
A micoterapia será um complemento sólido na prática clínica dos próximos anos?
Ou ficará limitada a nichos sem integração estruturada?
Como em quase tudo na medicina veterinária atual, a diferença estará na qualidade da decisão.
Nota: Num contexto em que a regulamentação europeia aperta critérios sobre suplementos e novos ingredientes, trabalhar com marcas que investem em padronização de beta-glucanos, rastreabilidade e dossiers técnicos próprios deixa de ser opcional e passa a ser fator de proteção reputacional para a clínica.
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