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One Health revisitado: quando a integração deixa de ser apenas um conceito bonitinho

One Health revisitado: quando a integração deixa de ser apenas um conceito bonitinho

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Durante anos, One Health foi tratado como um princípio orientador. Um enquadramento teórico interessante e inovador. Um consenso institucional elegante.

Entre 2024 e 2026, a conceptualização deixou de ser suficiente.

O que está hoje em cima da mesa não é a validade do conceito, é a sua execução.

E, nessa execução, o veterinário deixou de ser um ator periférico para se tornar um ponto de ligação crítico entre saúde animal, saúde pública e ambiente.

Numa mudança que não aconteceu diretamente pela evolução natural do setor... aconteceu por pressão das circunstâncias.

Porque é que One Health voltou ao centro do debate agora

O regresso de One Health não é académico, é reativo e existem três fatores principais que convergiram e empurraram o sistema para um ponto de não retorno:

1️⃣ A resistência antimicrobiana deixou de ser um problema clínico isolado.

Em Portugal, o consumo de antibióticos em farmácias comunitárias subiu de 18 doses diárias por habitante (DHD) em 2023 para 19 DHD em 2024. O crescimento entre 2019 e 2024 foi de 8%, quatro vezes mais do que a média europeia.

Apenas no primeiro semestre de 2025, a tendência desacelerou ligeiramente para 18,8 DHD, mas números preliminares de outubro apontam para uma taxa de crescimento anual de 9%.

Em paralelo, as vendas de antimicrobianos para uso veterinário em Portugal reduzem-se em 20,3% face a 2023 (49,6 mg/kg de peso vivo), refletindo compliance regulatória.

MAS: a Europa não está ainda no bom caminho. Desde 2019, a incidência de Klebsiella pneumoniae resistente aos carbapenemes aumentou em mais de 60% na UE. Mais de 35 mil pessoas morrem anualmente de infeções resistentes a antibióticos.


2️⃣ A instabilidade climática alterou padrões epidemiológicos.

O setor pecuário em Portugal representa 13% das emissões nacionais, com 70,3% sendo metano de fermentação entérica. O metano tem potencial de aquecimento global 80 vezes superior ao CO₂ em média ao longo de duas décadas.

Entre 2011 e 2021, as emissões agrícolas cresceram 7%, suportadas principalmente por aumento da população de bovinos de engorda. Vectores da Bluetongue e West Nile expandem geograficamente. Isto não é um cenário hipotético, é uma dinâmica epidemiológica atual. Preocupante.


3️⃣ A experiência da COVID expôs o custo brutal da deteção tardia.

Fragmentação entre sistemas de saúde humana, animal e ambiental significou detecção atrasada, resposta incoerente, custo sanitário incalculável.

Em resposta, organizações como OMS, FAO, WOAH e UNEP passaram do discurso à governação conjunta.

A integração do ambiente como pilar formal de One Health não foi simbólica. Tornou-se operacional, com metas, planos e obrigações de reporte.

Portugal participa ativamente no EU-JAMRAI 2 (Joint Action Antimicrobial Resistance and Healthcare-Associated Infections), que desde fevereiro de 2024 trabalha vigilância integrada de saúde humana, animal e ambiente.

O resultado é claro: One Health deixou de ser uma visão transversal e passou a ser um framework regulatório e funcional.

O que mudou então no paradigma One Health?

A principal mudança não está no "quê", mas no "como".

Antes, One Health promovia coordenação. Agora, exige responsabilidade distribuída, com impacto direto na prática veterinária.

Algumas alterações merecem destaque.


1️⃣ Da prescrição clínica para a vigilância sistémica

A prescrição veterinária deixou de ser apenas um ato terapêutico. Passou a ser um ponto de dados.

Em Portugal, a Prescrição Eletrónica Médico-Veterinária (PEMV) está operacional desde 2022 e permite "monitorização contínua da utilização de medicamentos em animais, incluindo medicamentos que contêm antimicrobianos". A PEMV inclui dashboards de resumo de prescrições por médico veterinário, agrupamento por exploração, animal ou afeção, e conversão inteligente de valores posológicos.

Na Irlanda, o National Veterinary Prescription System (NVPS) foi lançado em janeiro de 2025 como "base de dados eletrónica nacional que recolhe todas as prescrições veterinárias". Prescritors e dispensers podem usar aplicação web departamental ou integração com software próprio via API dedicada.

Sistemas de vigilância europeus evoluem de registos de vendas para registos de uso real, por espécie, por contexto e por região. Em alguns países, a prescrição eletrónica nacional já não é piloto, é algo absolutamente institucionalizado.

Na prática, cada decisão clínica alimenta hoje mecanismos de monitorização sanitária e ambiental. A pergunta já não é apenas "é eficaz?", mas também "é justificável, rastreável e defensável".


2️⃣ Da saúde animal isolada para a sustentabilidade produtiva

Em produção animal, saúde e sustentabilidade deixaram de ser temas paralelos.

Animais mais saudáveis significam menor necessidade de antibióticos, maior eficiência produtiva e menor pegada ambiental por unidade produzida. Protocolos reprodutivos, nutrição, vacinação e biossegurança passaram a ter leitura económica, sanitária e climática.

Aqui, o veterinário deixa de ser apenas um clínico. Assume um papel de consultor de resiliência do sistema. Portugal estabeleceu meta de redução de emissões de GEE em 28,7% até 2030 nos sectores não-ETS (Comércio de Emissões), sendo a agricultura alvo prioritário. Técnicas como inseminação artificial em tempo fixo (IATF) e otimização de ciclos reprodutivos são agora competência veterinária direta com impacto climático.


3️⃣ Da rastreabilidade legal para a rastreabilidade funcional

Identificação, registos e bases de dados já não servem apenas para cumprir legislação ou responder a auditorias.

Servem para detetar padrões anómalos, antecipar riscos e comunicar com autoridades, produtores e tutores de forma informada. A rastreabilidade tornou-se infraestrutura de vigilância, não apenas um requisito administrativo.

Em resumo, o que muda na prática, no terreno? (e se leu até aqui, parabéns, está aqui a chave do mistério 😉)

Esta transição não é neutra para quem está no dia a dia da profissão.

Na clínica de pequenos animais:

>> A comunicação com o tutor passa a incluir risco zoonótico, impacto ambiental e uso responsável de medicamentos.

>> A vacinação e a prevenção deixam de ser apenas proteção individual e passam a ser contributo para saúde comunitária.

>> A documentação e o reporte ganham peso, muitas vezes sem compensação direta em tempo ou receita.

Na produção animal:

  • A prevenção torna-se indicador central de rentabilidade.

  • As visitas de saúde animal ganham importância estratégica.

  • Decisões reprodutivas, nutricionais e sanitárias passam a ser avaliadas também pelo seu impacto ambiental.

Na relação com autoridades e parceiros:

  • O veterinário é esperado como primeiro sinal de alerta.

  • A comunicação de dados e de desvios passa a fazer parte da função.

  • A margem para informalidade diminui.

Em suma: One Health já não é opcional e também já não é abstrato.

Entre 2024 e 2026, o veterinário europeu foi reposicionado como elo central entre sistemas que antes funcionavam em silos. A profissão ganhou relevância estratégica, mas também uma carga acrescida de responsabilidade.

A diferença, nos próximos anos, não estará em quem conhece o conceito. Estará em quem consegue operacionalizá-lo sem comprometer a qualidade clínica, a equipa e a sustentabilidade da prática.

E isso vai depender menos de intenções e mais de decisões estruturais: sistemas simples, dados úteis, logística fiável e parceiros que compreendam que saúde integrada exige execução consistente.

Na SOPRO, acompanhamos esta evolução com leitura técnica, proximidade ao terreno e foco naquilo que realmente faz diferença no dia a dia das equipas veterinárias.

Porque integrar não é apenas ligar conceitos. É garantir que o sistema acompanha.

🟢 SOPRO. Juntos, Somos Confiança.

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